08 julho 2012

Apontar

"[...] O homem histórico era o homem que se curvava perante os sinais (os vetores de significado) do chamado mundo-texto, da Natureza, a fim de decifrá-la, decodificá-la ('riatura libellum'). A relação homem-Universo ocorria, portanto, em um sentido unilateral e de fora para dentro, isto é, o Universo, enquanto 'estrutura' legível, é o que estabelece significados que devem ser explorados, entendidos e ordenados pelo homem.

Contudo, quando do advento do homem pós-histórico, surge a idéia de mundo absurdo: o meio perde seu caráter de texto. O conceito de que o Universo é, na verdade, uma composição de partículas soltas, átomos, frações insignificantes ('meaningless') e, mais recentemente, de bits, leva à concepção de que os sinais não são mais vetores de significado, de que o mundo já não transmite significados, pois é o homem quem os atribui, quem os cria, quem se ergue (tal como o homo erectus) e 'aponta o dedo' para a Natureza. Já aqui, tem-se um sentido de dentro para fora na relação homem-meio, de modo que não podemos analisar apenas o que as imagens mostram, mas sim a direção para qual apontam.

Temos, portanto, a resposta à primeira indagação: as imagens-técnicas significam dando um sentido a um Universo que perdeu o sentido. O homem é sujeito ativo e criador do e no mundo.
 
Prosseguindo o raciocínio, todo criador de imagens — seja ele um fotógrafo, um pintor, um arquiteto ou um trabalhador do departamento de trânsito — intenciona direcionar sua obra, ou seja, tem em mente um sentido que deseja agregar a seu trabalho (metáfora dos dedos). Surge, então, a programação (no sentido de alheamento) da vida em geral, pois tanto o indivíduo quanto o objeto modernos são condicionados a funcionar de determinada maneira, tendo em vista que as imagens — além de transmitidas por meios programados por pessoas programadas — serão recebidas por pessoas programadas. O filósofo faz, nesse ponto, uma crítica extremamente sensata aos critérios da vida moderna, especialmente ao avanço tecnológico desenfreado na área de produção das tecno-imagens. Vivemos num incessante, restringente e 'emburrecedor' movimento.
 
Logo, chegamos à resposta da segunda questão: as imagens-técnicas significam um imperativo a ser obedecido. Flusser adverte que tomemos conhecimento desse imperativo, dessa ordem, dessa cegueira e que paremos de 'significar vetores' que, no fundo, nada significam".

Bárbara de 2008, lendo Flusser pela primeira vez.

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